PRA NÃO DIZER QUE FALEI DOS CLÁSSICOS POR LUCAS SAGUISTA

14/12/2014 00:51

Pra não dizer que falei dos Clássicos

por Lucas Saguista

 

 

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Reparem na imagem de Shiryu de Kurumada Suikoden Hero of Heroes. Perceberam de onde a NT a pegou?

 

        É impossível falar hoje de Saint Seiya ignorando sua pluralidade, afinal, os horizontes da franquia agora se estendem nas mais diversas ramificações, respeitando igualmente a diversidade de autores e a variedade de abordagens realizadas no âmago desse vasto multiverso. Em outras palavras, aquilo que antes era resumido como “Clássico”, de Masami Kurumada, hoje é disseminado como “Saint Seiya”, não mais em sua individualidade, mas num aspecto geral e englobalizador. Seu título – Saint Seiya – abriu caminho para outras obras carregarem seu legado, tais como: Gigantomaquia, Episódio G, Next Dimension, The Lost Canvas, Saintia Shô, Episódio G Assassinos, Saint Seiya Ômega, e o mais recente Soul of Gold, ou seja, em outras palavras, discorrer sobre essa franquia ignorando algum de seus ramos seria como discutir Harry Potter, de J.K. Rowling, considerando unicamente “A Pedra Filosofal”, a obra primeira, em detrimento das outras.

 

        Infelizmente, o preconceito evidente de alguns ditos “fãs conservadores” acabou nublando esse olhar clínico e abrangente acerca do conteúdo apresentado na extensa franquia, e tal nevoeiro acabou cegando e destacando outro nicho específico de fãs dentro da própria condição de fandom. Esses mais conservadores colocam-se numa espécie de pedestal em relação a outros, assumindo um poder paradoxo de moderação, que tem como função decidir qual obra é mais digna – e qual é menos digna, consecutivamente – de ser aceita no cerne da franquia. Obviamente, o resultado dessa lastimável condição encontra-se na incapacidade de determinados fãs discutirem com propriedade a obra, não em sua singularidade, e, sim, no âmbito geral.

 

        Apesar de sua tentativa extremada de articulação de imagens através de metáforas – “um relâmpago numa garrafa” – e outros rodeios na dissertação, acabou-se notando não tardiamente a fragilidade da redação à medida que elementos substanciais das obras foram sendo ignorados – ou, até mesmo, omitidos – e, alguns, inclusive, completamente distorcidos e confundidos. Saintia Shô, por exemplo, acabou sendo apresentada nesta edição da revista como uma obra posterior aos conflitos da aclamada Rebelião de Saga, ou seja, a sangrenta Batalha das Doze Casas. No entanto, para quem acompanha a série, sabe muito bem que o roteiro utilizado por Kuori Chimaki, inicialmente, foi ao famoso estilo In Media Res, ou seja, a história começa na metade (ou final), mas volta-se para o início para assim ser narrada. Isto é, Saintia Shô não é uma história vivida por “guarda costas” de Saori após a queda de Saga de Gêmeos, mas, na realidade, ela ocorre paralelamente ao período – um pouco antes, eu diria – da Guerra Galáctica, ou seja, nos arcos iniciais do Clássico (em nível de curiosidade).

 

        Ainda mais imatura foi a atitude da redatora citar o crossover “Kurumada Suikoden Hero of Heroes”, de Yun Kouga, sem sequer teve a dignidade de apresentar a proposta desse mangá. Antes mesmo de reunir os principais personagens do universo das obras de Masami Kurumada num único contexto – para ilustrar, como o renomado “CLAMP” fez com “Tsubasa Chronicles” – esperava-se que no mínimo a redatora procurasse pesquisar sobre o mangá para, somente assim, procurar desenvolver uma introdução numa revista comemorativa. Intrigantemente, com o conteúdo disposto na internet (ou seja, seis capítulos introdutórios já traduzidos), ainda é impossível definir-se a proposta real desse mangá, unicamente, pode-se arriscar o comentário que as divindades olimpianas reuniram esses personagens em um único lugar, com o intuito de matá-los e, com isso, restabelecer a ordem da “mitologia”.

 

        Agora, de todos os artigos propostas para uma edição comemorativa, nenhum outro recebeu uma carga de indiferença tão grande quanto à adaptação cinematográfica “Saint Seiya, Legend of Sanctuary”, lançada nos cinemas em 21 de junho desse ano. Ora, não estamos tratando simplesmente de uma primeira experiência em computação gráfica, muito menos de um simples filme de roteiro audacioso com meta de revitalizar a franquia; estamos tratando de uma das mais importantes e maiores produções voltadas para o público de Saint Seiya, jamais visto antes.

 

        A Lenda do Santuário aparece com uma proposta extremamente audaciosa: um reboot que buscou reinterpretar todos os eventos ocorridos do início da obra até seu clímax na violenta Saga das Doze Casas, tudo isso num curto intervalo de tempo de apertados 93 minutos. Considerando somente a coragem dos estúdios da TOEI Animation em trazer-nos essa verdadeira epopeia dos quadrinhos para uma adaptação de computação gráfica já seria extremamente válida e digna de aplausos, entretanto, eles foram além e acrescentaram, não somente os elementos do mangá original, como também, as influências determinantes das outras obras publicadas.

 

        Considerando as mudanças significativas nesse reboot, pode-se notar o destaque do personagem Shura de Capricórnio, assim como a diferença de sua participação do Clássico, que é derrotado em batalha, para a adaptação, que ganha um destaque ímpar entre seus contemporâneos. Analisando atentamente, percebe-se que essa mudança de papel pode ter sido uma – possível - influência da nova obra de Megumu Okada, Episódio G Assassinos, onde o capricorniano protagoniza. Enfim, indiscutivelmente, essas releituras podem ter sido uma das maiores sacadas do roteirista Tomohiro Suzuki, que fez esse apanhado de referências e simbologias da franquia e, de maneira singela, retrabalhou-as para adaptarem-se confortavelmente ao novo contexto de Saint Seiya de Legend of Sanctuary.

 

        Para quem adquiriu a Neo Tokyo desse mês deve ter notado a superficialidade das redações de Lily Carrol, afinal, esta demonstrou uma intimidade muito grande com o Clássico, porém, os outros títulos não tiveram a mesma sorte, porque receberam pequenas pontas de informações – algumas, inclusive, equívocas... – e comentários vagos a fim de preencher a cota textual. Não estou afirmando, com isso, que a redatora se encaixa naquele perfil de fãs conservadores que buscam conscientemente desconhecer as outras obras, longe disso, porém, é inegável a falta de aproximação desta com os outros títulos. Ora, dispõe-se a redigir uma dissertação sem possuir um conhecimento básico ou intermediário de um determinado tema é, no mínimo, lamentável, agora, redigir uma redação para uma revista impressa, onde muitos leitores levarão em consideração o conteúdo distorcido como verdade é, indiscutivelmente, uma prova da indiferença (e descaso) tanto por parte da redatora como, também, do editorial da revista.

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