Uma análise de Hansel e Gretel, dos irmãos Grimm, para a famigerada adaptação de Maria e João, de Oz Perkins e Rob Hayes

26/02/2020 01:01

 

    Pode-se dizer que meu primeiro contato com contos infantis se deu, em minha infância, pelo livro Arlequim: os doze melhores contos, da editora Todolivro, cuja capa continha o gênio da lâmpada e um Aladim maravilhado. Entre essa coletânea, claro, havia o famoso conto dos Irmãos Grimm adaptado para o público infantil noventista: João e Maria.

    Diferente da obra original dos irmãos Grimm, aqui as crianças ajudavam seus pais lenhadores na labuta, até que um dia, ao se perderem na floresta por adentrarem demais na mata, acabam encontrando a famosa casa de delícias, cujas paredes eram de pão de ló, telhado de chocolates e adornos de jujubas: a casa da boa senhora, que não tardaríamos a descobrir se tratar da bruxa. As crianças são capturadas: João é posto numa prisão de ferro para ser engordado, enquanto Maria sofria com trabalhos caseiros e as violências da bruxa. Apesar de mais forte, a velha bruxa enxergava mal, e não conseguia perceber que João lhe oferecia um ossinho, e não seu dedo, quando esta inspecionava-o para saber se estava no ponto para abate. Assim que paciência da bruxa chega ao limite, ela ascende seu forno, porém, é empurrada pela dupla e, nesta versão da história, por ser muito gorda, caiu de modo que não conseguiu sair de seu trágico fim. No final, as crianças descobriram tesouros e levaram para os pais, que os aguardavam ansiosos.

    Bem, a versão original do conto nem de longe foi tão suave.

    Aqui, os irmãos Grimm colocam uma madrasta cruel casada com o lenhador, o pai das crianças, e no momento em que a família começa a passar por necessidades ela induz o marido a se livrar das crianças na floresta. Os irmãos ouvem o plano traiçoeiro e se preparam: na manhã seguinte, João, que enchera os bolsos com pedrinhas do leito do rio, vai jogando-as pelo caminho, a fim de marcar o caminho. Ou seja, não é de se espantar que as crianças regressam de madrugada para casa, onde são acolhidos calorosamente pelo pai.

    Contudo, são pegos de surpresa novamente com outro intento, e dessa vez a madrasta afastou-se o suficiente para que eles não conseguissem voltar. Para piorar a situação da dupla, João não teve tempo de catar as pedrinhas, logo, precisou esmigalhar seu pãozinho pelo caminho... Ao cair da noite, as crianças percebem que as migalhas foram comidas pelos pássaros, o que faz a dupla desorientada procurar o caminho de casa se embrenhando na mata.

    E foi aí que encontram a famosa casinha de pão de ló e outras gostosuras, lar da doce velhinha não tão doce quanto aparentava ser, que os captura com a finalidade de devorá-los. A partir daí a história segue da mesma forma tal qual contada na versão do Arlequim: ela tenta engordar João enquanto obrigava Maria a trabalhar. Periodicamente, a bruxa inspecionava o dedo de João, porém o garoto lhe dava um ossinho, e como a bruxa enxergava mal, deixava-o para comer sempre no dia seguinte. Aqui é interessante ressaltar um detalhe:

 

“As bruxas são, geralmente, míopes e têm os olhos vermelhos, mas são dotadas de um olfato muito agudo, como os animais, o que lhes permite pressentir a chegada de criaturas humanas. Portanto, quando Joãozinho e Margarida se aproximaram da casa, ela riu sarcasticamente, dizendo com os seus botões: Estes caíram em meu poder, não me escaparão mais.

 

    É interessante ressaltar que na versão dos irmãos Grimm, as bruxas possuem características específicas tais como olhos vermelhos, o fato de serem míopes, e o olfato apurado, que lhes permite pressentir a chegada de humanos. Essa informação deixa a refletir se as bruxas, neste conto, não seriam uma espécie de entidades malignas, mas não necessariamente humanas.

    Enfim, Maria aqui demonstra astúcia: Quando a bruxa pede para que a garota entre no forno para saber se o mesmo está quente o suficiente para assar João, Maria finge não saber como se procederia tal empreitada, e foi aí que a bruxa, irritada, ao demonstrar, acaba caindo na armadilha da garota. A bruxa aqui queima até os ossos.

    As crianças acham os tesouros da bruxa e, com a ajuda de uma gansa muito prestativa, atravessam o rio, onde voltam para a casa. A recepção do lenhador é calorosa, e lá descobrem que a madrasta havia morrido.

    Até aqui, vemos situações em que duas crianças lidam com situações absurdas: além da fome, como sendo um fator predominante (sobretudo no conto dos irmãos Grimm), encontramos temas como o abandono, como cárcere privado, violência doméstica, abuso infantil, canibalismo e, claro, o fato de que duas crianças precisam agir como assassinos e saqueadores. Realmente, Hansel e Gretel, adaptados como João e Maria, não pode ser considerado um conto infantil devido as temáticas invasivas que fariam a mente de qualquer criança se torcer violentamente. Afinal, neste conto, qualquer vestígio de um adulto bonzinho surgindo com a intenção de ajudar dois garotos perdidos é substituída por uma atmosfera tensa em que este que surge, com a mesma mão que oferece a suposta ajuda, pode fazer atrocidades com a outra.

    Em 2014, Neil Gaiman em parceria com o ilustrador Lorenzo Mattotti faz uma adaptação mais sombria do conto: aqui, o cenário se transforma por causa de uma guerra, que traz a miséria e, com ela, a fome. Usando desse brilhante artifício narrativo, o autor da uma cor cinza para o cenário e um tom amargo à narrativa, onde a fome pode ser sentida pelo leitor. A figura da mãe das crianças (primeira diferença com o conto dos irmãos Grimm, pois lá era uma madrasta) se apresenta engessada e ressentida, fazendo o pobre lenhador ter que tomar a difícil decisão de se livrar dos filhos. Assim como no conto dos irmãos Grimm, João consegue persuadir o plano maquiavélico, porém, numa segunda tentativa por parte do lenhador, a duplinha acaba se perdendo na floresta.

    Apesar de ser uma releitura, Neil Gaiman se manteve muito fiel a literatura dos irmãos Grimm, limitando-se apenas a dor toques a mais na personalidade da bruxa, assim como desenvolver melhor a personalidade das crianças. Basicamente, o único fator realmente inédito é a guerra, citada ainda nas páginas iniciais do livro, como se o autor apenas estivesse “conduzindo” a história já conhecida, cortando excessos e ajustando furos narrativos (como a explicação da fome, originada pelos tempos de escassez por causa da guerra).

Como podemos constatar:

  • João e Maria da coletânea do Arlequim;
  • Hansel e Gretel dos irmãos Grimm;
  • E o não tão recente João e Maria de Neil Gaiman;

    Apesar de algumas diferenças entre as versões, mesmo a primeira que é a mais infantilizada dos três, possui o mesmo fio narrativo. A história é conduzida em cima desses elementos, que praticamente ajudam a construir o roteiro: a causa da fome, o abandono, as crianças sendo capturadas por uma bruxa malvada; o assassinato da mesma e o regresso à família. Detalhe que mesmo eles sendo abandonados – e podendo continuar vivendo na casa da bruxa, eles mantêm a ideia fixa de voltar ao seio familiar, o que reforçar a visão dos autores que mesmo uma família desestruturada ainda assim é uma família.

    O problema é a adaptação mesmo de Oz Perkins.

    Como pertenço a uma geração que comprava revistas na banca para saber “spoilers” (naquela época além de não ter nome para isso, não se era visto como algo ruim como hoje), eu vou dedilhar a adaptação cinematográfica em cima das versões literárias da dupla alemã e de Neil Gaiman. Sem mais delongas, sigam-me.

    A história começa apresentando o nascimento de uma menina, cuja saúde debilitada fez com que o pai procurasse uma feiticeira para livrá-la da morte certa. A menina cresce sendo bela e admirada, assim como também carrega consigo um dom: o dom de prever o futuro. Porém, este dom bizarro só trazia dor as pessoas, pois não mostrava nada de bom, o que acarretou em sua expulsão do lugar.

    Apresentado essa parte, as atenções voltam-se aos protagonistas da vez, ou melhor, a protagonista.

    Antes de mais nada é preciso deixar claro que o filme não consegue esconder sua inclinação política, ao dar todos os holofotes do filme à Maria, representação do feminino por excelência, que é perseverante, corajosa e determinada; em detrimento de João, a representação masculina, que demonstra ignorância, procrastinação e preguiça.

    Aqui, a fome não se dá pela guerra, como aconteceu na adaptação de Neil Gaiman, mas sim pela peste, que faz com que a força de trabalho caia, gerando a escassez. Maria se apresenta para a figura religiosa local, onde pensaria servir como governanta, porém, ao perceber que o interesse do contratante girava em torno de desejos sexuais, ela vai embora. A figura do lenhador não existe: o pai das crianças foi atingido pela tal peste, e estava morto fazia dois anos.

    A mãe das crianças as expulsa quando constata que Maria não aceitou trabalhar se prostituindo – e apesar de João, que era caçula, cogitar voltar, a ideia sequer é considerada uma possibilidade após a mãe ameaça-los com um machado.

    Bem, é visível aqui que o roteirista Rob Hayes se preocupou em mostrar a base familiar se colapsando, tal como no original. Contudo, ao fazer isso, toda a astúcia que João teve em recolher pedrinhas para marcar o caminho e, assim, voltar para casa em segurança com Maria cai por terra. Dessa forma, o roteiro desse filme elimina essa que era uma das bases do conto, e aqui a coisa começa a tomar um rumo diferente. É perceptível aqui que o menino é considerado um fardo pela irmã, e tal responsabilidade faz-se pesada para Maria, o que entra em contraste com a obra literária, já que lá ambos se davam muito bem.

    Mas a bizarrice dá seus primeiros passos ainda no início: Maria demonstra ter uma habilidade, um dom, capaz de ver a essência das coisas tais quais a são. Isso se manifesta na forma dos vultos distantes que ela observa rodeando-os em seu caminho, ou quando ela conversa com os cogumelos. Durante sua caminhada, eles procuram abrigo numa casa que era conhecida de Maria da época em que seu pai estava vivo, porém, ambos são atacados por um homem de pele albina. Este acaba sendo morto por um caçador, o que deixa a história até esse ponto com informações exageradas, sem nexo e foram de ordem.

    E detalhe: a primeira figura masculina ponderável do filme é o caçador. Todas as vezes em que personagens masculinos são postos em cena é possível ver neles uma atmosfera sombria e intrigante, algo que desperta insegurança e causa desconforto para quem está assistindo os personagens. Essa “métrica”, por assim dizer, lembra muito os eventos narrados em Frozen (2013), da Disney, onde praticamente todos os personagens do universo masculino eram corruptos, obsessivos e desonestos. É possível ver no decorrer do filme que essa tentativa de empoderar a personagem de Maria, encenada pela atriz Sophia Lillis, acaba sendo tão repetitiva que se torna cansativa em dado momento. E esse recurso, por não ter sido explorado corretamente, além de acabar deixando o espectador cansado, deixa em xeque completamente a importância de João para a trama.

    As crianças seguem pelo caminho indicado pelo caçador, porém, ao se fartarem com cogumelos alucinógenos, acabam tomando rumos inexplorados e, finalmente, chegam à casa da bruxa. Diferente da literatura, aqui a cabana rústica não tem paredes de pão de ló, telhados de chocolates, vidros de jujubas e outras gostosuras: aqui, o manjar encontra-se servido numa mesa ampla.

    Tal qual como na literatura, João é o primeiro a provar das delícias. Após alguns momentos inquietantes em que Maria perde contato com o irmão dentro da casa, a gentil senhora aparece, convidando-os para se alimentarem. Precisamos ressaltar que a atuação de Alice Krige foi sufocante, perturbadora e inquietante do início ao fim, entretanto, aqui também topamos com mudanças profundas entre a obra literária e a adaptação cinematográfica: a bruxa não prende João numa gaiola, como no clássico infantil, pelo contrário, ela é persuasiva e vai mantendo as crianças em seu lar improvisado, enquanto parece estar cercando-os até o momento certo para o abate.

    Maria tem visões desconexas o filme inteiro, a partir daí.

    Recursos já utilizados em tantos filmes de terror onde a assombração que se apresenta como vilã desde o início do filme acaba se mostrando, antes do fim, vítima de alguma outra pessoa ou situação que, no final, acaba se mostrando boa por tentar salvar os mocinhos do verdadeiro mal; aqui também se repete. O filme tenta explorar em Maria esse dom paranormal de ver, ouvir e sentir coisas que estão ao redor, imperceptíveis para outras pessoas como o João, mas faz isso de maneira muito desorganizada. É quase uma tentativa de criar uma espécie de “Eleven 2.0”, mas de uma maneira muito mal trabalhada.

    A bruxa vai transmitindo a Maria seus conhecimentos, a como fazer poções – literalmente, enquanto a mantém entretida em atividades domésticas e o menino João, lutando ferozmente para derrubar árvores; e a animar objetos, a controla-los. Elementos que só serviam para sugerir que outros haviam passado por ali, como brinquedos e calçados espalhados pela floresta são mostrados, mas, sem nenhum tipo de aprofundamento. O que acaba se tornando aquele famoso mais que é menos.

    Claro, a conexão com os irmãos vai enfraquecendo – até por que é óbvio que João é a parte fraca da corda, uma vez que deixaram para o papel para ele ser o ignorante da vez. Literalmente, a saída que o roteiro encontra para elevar a figura do feminino num filme em que temos Maria e a bruxa como personagens extremamente fortes é o de diminuir ainda mais a importância de João, fazendo-o cometer erros além de não acrescentar em nada para qualquer interação inteligível com as duas.

    Uma coisa bizarra que descobrimos através das visões de Maria, é que a comida era, na realidade, restos mortais e órgãos das outras crianças que foram mortas pela bruxa. Isso é um ponto positivo para o filme, porém, o recurso que usaram para mostrar isso ao público, embora desenvolvesse a personagem de Maria, acabou sendo repetitivo, cansativo e maçante.

    Por fim (e olha, eu poderia dizer que estou resumindo muito, mas é que o filme realmente não tinha todo esse hype), após uma discussão, João desaparece.

    O confrontamento com a bruxa acontece a partir de um diálogo expositivo, onde a mesma mostra seus poderes e revela que a história da menina, do início do filme, tratava-se da filha da mesma, o que fez a bruxa se livrar da menina, da mesma forma, em sua busca pelo poder, tomar a decisão de devorar seus dois filhos. Ela dizia que os filhos eram o veneno dela, e que Maria deveria fazer a mesma coisa com João, a fim de liberar todos os seus poderes.

    Usando o que aprendeu com a bruxa, Maria usa seus poderes e faz com que a bruxa queime até não sobrar da mesma.

    João acaba partindo para o vilarejo que o caçador havia indicado e Maria acaba ficando para trás, na casa da bruxa, onde podemos ver as almas das crianças que se libertaram, assim como a marca negra que a bruxa carregava consigo sobrescrevendo-se nas mãos de Maria – o que dá a entender que a menina viria a ocupar o lugar da bruxa no futuro.

    Basicamente, este filme se concentra tanto em empoderar a figura de Maria que faz a narrativa ser arrastada, cansativa e amena. A escolha do roteiro em fazer da figura dos homens como sendo perniciosos, traiçoeiros e ignorantes faz com que a experiência seja péssima, porque é o mesmo artifício usado em episódios da animação da Liga da Justiça, onde, para bem de destacar a figura do Batman, os roteiristas apelavam pelo emburrecimento coletivo de todo o grupo. E esse mesmo fenômeno acontece aqui. Mesmo João demonstra uma teimosia e egoísmo tão grande que faz com que Maria opte pelo simples caminho de “concordar” com ele, na esperança do moleque calar a boca.

    A bruxa transformar os restos mortais de suas vítimas em banquetes saborosos para atrair outros desavisados foi um ponto positivo, mas, sendo franco, as revelações da mesma a partir das visões de Maria e seus diálogos expositivos no momento crucial do filme fez com que a personagem perdesse significância e, por fim, toda aquela atmosfera hostil e perturbadora dá espaço para algo ameno, em “banho-maria”. Outra coisa ainda envolvendo a personagem da bruxa, mas de modo a encerar como uma espécie de extensão de suas atribuições são os fantasmas das crianças que estavam presas na floresta e na casa: Da mesma maneira que o roteiro optou por não dar explicações sobre aquele homem albino que mais parecia um zumbi, o roteiro também não procurou se aprofundar nas motivações dos espíritos ali contidos, muito menos em mostrar a bruxa fazendo algo em relação a isso. Na realidade, o que mais tem são cenas desconexas, como a cena em que a bruxa sai de casa para cavar um buraco e vomitar.

    Sinceramente, acho que esse filme não conseguiu captar a essência da obra de João e Maria, o que fez a promessa de sua produção ser menor que sua execução em si, propriamente falando. Em poucas palavras, o filme além de descaracterizar os personagens, dando poderes a Maria e diminuindo a relação entre os irmãos para dar cada vez mais destaque para a personagem de Sophie Lillins deixou a história tão distante do original que sequer deixou alguma mensagem realmente pertinente no final, como ponto moralizador - característica fundamental de qualquer bom contos de fadas.

Por Lucas Saguista

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